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Uma viagem colorida ao mundo preto e branco das massas e seus tabus.

1 INTRODUÇÃO

 Realizar uma formação em processos grupais nos ajuda a pensar que os grupos, de fato, fazem parte da nossa vida. Dificilmente conseguiremos fugir do grupo da família, dos colegas de trabalho ou do grupo de estudos. E o que geralmente fazemos nos grupos pelos quais circulamos é saborear os afetos, digerir os desafetos, adaptar-nos a esse grupo e resignar-nos a frases do tipo “sempre nos organizamos desta forma”.

Pensando nestas questões, o presente trabalho tem por objetivo fazer uma aproximação entre os conceitos de totem, tabu e psicologia das massas usando como fonte de investigação o filme Pleasantville – A vida em Preto e Branco. O longa servirá de dispositivo para nos ajudar a perceber e exemplificar como totens, tabus, resistências, ansiedades, contágio emocional e liderança podem se apresentar como sendo parte dos processos grupais.

A estrutura metodológica se volta à análise de algumas cenas do filme e essas foram cruzadas com conceitos abordados nas obras Psicologia das multidões de Gustave Le Bon e as obras Totem e Tabu e Psicologia de Grupo de Sigmund Freud.

O artigo traz uma seção referente aos conceitos de totem e tabu e psicologia das massas, a seção seguinte apresenta uma resenha do filme Pleaseantville, e a última segue com a análise do filme à luz dos conceitos de Freud e Le Bon e se encerra com as considerações finais.

 

2 MENTE GRUPAL

Muito do que entendemos hoje como organização social, arte, religião e atitude com a vida tem por base as lendas e mitos das relações dos povos primitivos (FREUD, 2006a, v. 18). Por isso, iniciamos o capítulo trazendo alguns aspectos sobre psicologia das massas e na sequência serão abordados aspectos referentes ao texto Totem e Tabu de Freud.

Para Le Bon (2008) a mente grupal se cria mesmo entre pessoas de diferentes ocupações, caráter e estilos de vida que componham um grupo. Para ele, essas pessoas fazem parte de uma mesma unidade mental.

Spencer (apud LE BON, 2008) compara a junção das pessoas como uma fórmula química, pois nesta não há soma ou média como na matemática, mas a combinação e criação de novas características.

Sendo assim, Le Bon (2008) percebe que os indivíduos terão algumas características que serão assumidas individualmente, mas também terão características que serão encontradas apenas na coletividade. No entanto, não se sabe o que causa essa diferença.

Ao falar sobre essas diferenças entre indivíduo e grupo, Le Bon (2008), traz os elementos conscientes e inconscientes. Ele nos diz que os elementos conscientes estão bem presentes nas reações individuais, mas nos grupos são os elementos inconscientes que prevalecem.

Além disso, Le Bon (2008) defende que os dotes individuais desaparecem, o caráter passa a ser médio, o indivíduo adquire sentimento de invencibilidade, o sentimento de responsabilidade – que dá controle ao indivíduo – desaparece, fazendo com que ele aja mais pelo instinto inconsciente do que pela razão, parecendo hipnotizado e sem consciência. Mas ao mesmo tempo em que algumas características do indivíduo podem ser destruídas outras podem ser potencializadas. “Ele [o indivíduo] já não é ele mesmo, é um autômato cuja vontade tornou-se impotente”. (LE BON, 2008, p. 36). Quanto ao caráter, dependerá de qual será o estímulo do líder. (LE BON, 2008).

Ao falar sobre o indivíduo no grupo, Freud (2006a, v. 18) apresenta semelhança deste com os povos primitivos e com as crianças. Além disso, diz haver uma redução da capacidade intelectual do indivíduo quando em grupo.

Le Bon (2008) segue e define um grupo como sendo crédulo, influenciável, sem senso crítico, com sentimentos simples e exagerados, não conhece dúvida e incerteza e a antipatia pode facilmente se transformar em ódio. Além disso, as inibições individuais, as primitividades e os instintos vêm à tona, podendo surgir atitudes de Revista da SBDG – n.9, p. 7-16, novembro de 2019 9 heroísmo e sacrifício típicos de grupo maiores como as multidões, o que dificilmente aconteceria individualmente.

Sendo a multidão impressionável apenas por sentimentos excessivos, o orador que quiser seduzi-la deverá abusar de afirmações violentas. Exagerar, afirmar, repetir e nunca tentar demonstrar qualquer coisa por meio de um raciocínio são os procedimentos de argumentação familiares aos oradores de reuniões populares (LE BON, 2008, p. 52).

Uma multidão é autoritária, intolerante, possui sentimentos simples e extremos, mais favorável a mestres tiranos e dominadores. É conservadora, tem aversão a mudanças e prefere a tradição. Isso significa dizer que opiniões, ideias e crenças são vistas como verdades absolutas ou erros absolutos (LE BON, 2008).

Os grupos de pessoas normalmente se colocam sob a autoridade de um líder e a opinião deste é o centro de formação e identificação de opiniões. E geralmente este líder já foi conduzido, hipnotizado pela ideia da qual se torna referência. Dessa forma, ele é uma espécie de líder apóstolo e possui fortes convicções e as seguem sem muito refletir (LE BON, 2008).

É importante ressaltar que nem todos os líderes possuem essas características, alguns estão voltados apenas aos seus interesses pessoais, mas a influência que estes exercem é passageira. Já aqueles que trazem consigo o fascínio no que acreditam, criam nas pessoas uma certa fé na qual as tornam escravas de seus sonhos (LE BON, 2008). “Não é a necessidade de liberdade que domina a alma das multidões, mas a da servidão. Sua sede de obediência as faz submeter-se instintivamente a quem se declarar seu mestre” (LE BON, 2008, p. 114).

A liderança age baseada em algumas ações como: a afirmação, a repetição e o contágio. E os grupos se guiam por modelos e não por intermédio da argumentação. Sendo assim as informações devem ser simples, precisam ser repetidas nos mesmos termos e então tem-se a imitação que se transforma em contágio. Quando as pessoas são contagiadas pelos discursos do líder, ele será prestigiado, e, consequentemente, acompanhado de sentimentos de admiração, respeito, fascínio e temor (LE BON, 2008).

A intensidade que a liderança pode gerar, é apresentada por Le Bon (2008, p. 122) como: “[…] um fascínio que paralisa todas as nossas faculdades críticas e nos enche a alma de admiração e respeito”.

Além destas características da mente grupal que vimos até então, McDougall (apud FREUD, 2006, v. 18) diz que o resultado mais importante na formação de um grupo é o que o indivíduo experimenta no próprio grupo: um contágio emocional que não aconteceria de forma individual.

Outra consideração de McDougall (apud FREUD, 2006, v. 18) nos diz que é perigoso se opor ao grupo.

[…] será mais seguro seguir o exemplo dos que o cercam, e talvez mesmo ‘caçar com a matilha’. Em obediência à nova autoridade, pode colocar sua antiga ‘consciência’ fora de ação e entregar- -se à atração do prazer aumentado, que é certamente obtido com o afastamento das inibições (MCDOUGALL apud FREUD, 2006, v. 18).

McDougall (apud FREUD, 2006, v. 18) diz ainda que o sentimento de grupo se alastra entre os integrantes quando determinadas características e ações acontecem:

  1. a) o sentimento de continuidade de existência do grupo em questão é nítido;
  2. b) há relação emocional para como grupo;
  3. c) o grupo se colocado em interação e se afina. Mesmo que talvez sob a forma de rivalidade com outros grupos semelhante;
  4. d) tradições, costumes e hábitos são criados ou enaltecidos;
  5. e) possui estrutura definida

Outro fator importante na formação de um grupo são os laços de identificação, pois estão baseados em uma qualidade emocional comum que pode ser a natureza do laço com o líder ou pode ser a empatia (FREUD, 2006, v. 18).

 

2.1 Totem

O totem era o elemento mais importante do clã. A base de todas as relações, pois era o que hoje chamamos de elemento sagrado ou divindade. Geralmente era um animal compreendido como perigoso para todos, menos para o clã que o tinha como guardião, que lhe protegia e enviava oráculos (FREUD, 2006b, v. 13).

O totem não podia ser escolhido, era hereditário e não mudava mediante o casamento. Cada clã tinha algumas obrigações sagradas para com seu totem que eram basicamente referentes a não matar o totem e não comer sua carne, por exemplo. Além disso, havia as festividades em torno do totem com danças e cerimoniais. Caso as obrigações não fossem seguidas a punição era severa, sendo geralmente a morte (FREUD, 2006b, v. 13).

 

2.2 Tabu

O tabu era e ainda é compreendido como algo sagrado, misterioso, proibido, perigoso e impuro. Apesar dessa perspectiva revela-se distinto de proibição religiosa e moral, já que se impõe por si só.

Os tabus têm origem desconhecida. Suas proibições para aqueles que frequentam determinada sociedade são tidas como algo normal, como um código não expresso de forma escrita, apenas obedece-se sem questionar. Um dos objetivos dos tabus está relacionado à guarda dos principais atos da vida como o nascimento, a iniciação e as experiências sexuais (FREUD, 2006. v. 13).

‘(i) os tabus diretos visam (a) à proteção de pessoas importantes – chefes, sacerdotes etc. – e coisas, contra o mal; (b) à salvaguarda dos fracos – mulheres, crianças e pessoas comuns em geral – do poderoso mana (influência mágica) de chefes e sacerdotes; (c) à precaução contra os perigos decorrentes do manuseio ou entrada em contato com cadáveres, ingestão de certos alimentos etc.; (d) à guarda dos principais atos da vida – nascimento, iniciação, casamento e funções sexuais etc. contra interferências; (e) à proteção dos seres humanos contra a cólera ou poder dos deuses e espíritos; (f) à proteção de crianças em gestação e de crianças pequenas que mantêm uma ligação especialmente forte com um ou ambos os pais, das consequências de certas ações e mais especialmente da comunicação de qualidades que se supõem derivar de certos alimentos. (ii) Os tabus são impostos a fim de prevenir contra ladrões a propriedade de um indivíduo, seus campos, ferramentas etc’ (FREUD, 2006b, v. 13).

Quanto à punição, inicialmente o próprio tabu se vingava, como um agente interno automático. Com o passar do tempo, quando surge a noção de deuses e espíritos, é o divino que aplica penalidades ao transgressor. Com o processo de evolução a sociedade também aparece como punidora dos transgressores. E nesta questão de punição percebe-se que aquela pessoa que viola o tabu também se transforma em tabu, ou seja, aquele que transgride o proibido também se torna proibido. Como um sistema de contágio de algo perigoso, deixando a pessoa contagiada em uma posição diferente dos outros membros do grupo. (FREUD, 2006b, v. 13).

Esse poder está ligado a todos os indivíduos especiais, como reis, sacerdotes, ou recém-nascidos, a todos os estados excepcionais, como os estados físicos da menstruação, puberdade ou nascimento, e a todas as coisas misteriosas, como a doença e a morte o que está associado a elas através do seu poder de infecção ou contágio (FREUD, 2006b, v. 13).

Quando se diz que aquele que violou o tabu se torna tabu, tem-se medo de que os outros sigam seu exemplo, imitando-o e fazendo o que é proibido e que tenham vontade de fazer, afinal não se proíbe o que as pessoas não têm vontade de fazer. Por isso a pessoa precisa ser evitada, para que sua atitude não seja contagiosa (FREUD, 2006b, v. 13).

 

O que está em questão é o medo do exemplo infeccioso, da tentação a imitar, ou seja, do caráter contagioso do tabu. Se uma só pessoa consegue gratificar o desejo reprimido, o mesmo desejo está fadado a ser despertado em todos os outros membros da comunidade. A fim de sofrear a tentação o transgressor invejado tem de ser despojado dos frutos de seu empreendimento e o castigo, não raramente, proporcionará àqueles que o executam uma oportunidade de cometer o mesmo ultraje, sob a aparência de um ato de expiação. Na verdade, este é um dos fundamentos do sistema penal humano e baseia-se, sem dúvida corretamente, na pressuposição de que os impulsos proibidos se encontram presentes tanto no criminoso como na comunidade que se vinga (FREUD, 2006b, v. 13).

O tabu foi se tornando também uma forma de legislação e inclusive era usado “[…] por chefes e sacerdotes para a proteção de seus próprios privilégios e propriedades” (FREUD, 2006b, v. 13).

Freud (2006b, v. 13) traz a temática da consciência, culpa e ansiedade (pavor da consciência), que acredita ter surgido no contexto do tabu.

[…] a ansiedade aponta para fontes inconscientes. A psicologia das neuroses nos fez ver que, se impulsos cheios de desejo forem reprimidos, sua libido se transformará em ansiedade. E isto nos faz lembrar que há algo de desconhecido e inconsciente em conexão com a sensação de culpa, a saber, as razões para o ato de repúdio. O caráter de ansiedade que é inerente à sensação de culpa corresponde ao fator desconhecido (FREUD, 2006b, v. 13).

Segue a próxima seção com a descrição do filme para, na sequência fazer uma interface entre o referencial teórico e o filme.

 

3 PLEASANTVILLE, O FILME

O filme norte americano Pleasantville ou como foi registrado no Brasil A Vida em Preto e Branco, é uma daquelas fábulas típicas que começa, inclusive, com era uma vez…

O longa lançado em 1998, escrito e dirigido por Garry Ross, conta a história dos irmãos gêmeos e adolescentes Jennifer e David que vivem seus tradicionais dramas juvenis em plena virada de século.

Tobey Maguire dá vida ao garoto David Wagner que tem sua introspecção alimentada pelo seu vício no seriado de TV dos anos 50, Pleasantville. Já sua irmã Jennifer, interpretada por Reese Witherspoon, é a garota descolada, que quer ser popular na escola e adora MTV.

Os dois têm suas rotinas modificadas, como num passe de mágica, depois de uma briga pelo poder do controle remoto da televisão.

Até aí nada que fuja da realidade, mas eis que surge – inesperadamente – um técnico de TV com a proposta de substituir o controle remoto quebrado. E um simples apertar no botão do play transporta os dois jovens ao seriado Pleasantville.

A cidade fictícia da série, que se passa em preto e branco, mais parece um mundo paralelo e idealizado onde tudo é lindo e perfeito. Lá as pessoas são brancas, ninguém precisa ir ao banheiro, eles não fazem sexo e as relações se dão de forma harmônica e utópica, sem conflitos, sem curiosidade e sem emoções profundas.

Essa normalidade é quebrada com a chegada dos irmãos que incorporam personagens do seriado e trazem mudanças através de suas atitudes, pensamentos e modo de viver real.

Presos em um seriado de TV ou no “[…] mundo dos idiotas” como diz a garota, os dois iniciam, sem querer, uma revolução: a de dar cor ao mundo todo preto e branco.

Mas o que o poderia colorir o mundo naquela cidade? No desenrolar da trama vemos que relações interpessoais, bem-estar, conhecimento, sexo, mudanças de atitudes, emoções verdadeiras, se colocar em perigo e se relacionar de fato com o outro; colore a vida dos seus habitantes.

A transformação incutida pelos dois jovens na sociedade pleasantvilleiense divide a cidade e gera segregação e preconceito.

De um lado o grupo P&B que acredita que a vida em preto e branco, sem emoções e calcada na moral vigente e conservadora, mantém a ordem e o controle da sociedade. Do outro, o grupo dos Coloridos que experimentou o beijo, o sentir, o sexo, a leitura, a pintura, o risco, o dizer não, a liberdade que uma vida colorida pode ter.

A música Across the Universe dos Beatles embala a trilha interpretada por Fiona Aplle. O refrão: “nada vai mudar meu mundo” conflita com a pergunta do garoto ao pai conservador: quer mesmo que tudo volte a ser como era? Como resposta o pai diz: o que vai acontecer agora?

O controle remoto traz os dois à vida real.

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Pleaseantville, ou em tradução livre cidade agradável, conta a história de um seriado que se passa nos anos 50, e dá nome a cidade – cenário da trama. Nesse mundo de fábula vive-se sem conflitos na qual todos os personagens agem de forma afável e previsível. A família central da série são os Parker: George, o pai; Betty, a mãe; e os irmãos gêmeos Mary-Sue e Bud. O filme, inicialmente em preto e branco, traz a sensação de uma vida sem cor, com relações e papeis pré-estabelecidos e com emoções ausentes. Exemplo disso é a cena na qual George chega em casa e diz “Querida, cheguei!” E a esposa Betty prontamente o recebe com uma bebida, a comida favorita posta a mesa e a resposta: “Olá querido, como foi seu dia?” Até então um retrato regular da família normativa ocidental.

A vida na cidadela se dá sem imprevistos e incidentes e tudo é quase perfeito. Prova disso é o time de basquete da escola que sempre se consagra campeão. Nessa história os bombeiros não estavam ali para combater incêndios e sim salvar gatos, como vemos na cena na qual uma árvore está em chamas e os profissionais não sabem como acabar com elas. Nesse mundo, os livros da biblioteca são todos com folhas em branco, não havendo espaço para o conhecimento.

A vida em Pleaseantville revela-se linear e diplomática.

Esta forma opaca de vida é ameaçada com a chegada dos irmãos da vida real David e Jennifer que, transportados para dentro do seriado e da vida em Pleaseantville, assumem os personagens de filhos de George e Betty Parker. A jovem moderna Jennifer, que muito a contragosto decide ficar na cidade e na fantasia, assumindo o papel de Mary Sue, mexe nos padrões até então estabelecidos e nos tabus daquela sociedade. O papel dela é de trazer inquietação seja através de perguntas mais explicitas a professora durante uma aula no colégio ou fomentando seu desejo juvenil. O irmão tenta controlá-la já que ele conhece a trama por ser seu seriado favorito, mas não consegue, Jennifer no papel de Mary Sue faz o que deseja e não o que estava estipulado no roteiro.

Nessa cidade na qual não se faz sexo e não se conhece o poder da arte, Mary rompe esse padrão normativo é a primeira a ter relações sexuais na Alameda dos Prazeres. Com isso, coloca a pitada de transgressão que traz a primeira cor para aquela sociedade. O ato sexual confronta os tabus da rotina, das relações e do desejo.

Outros personagens com o decorrer da história vão sendo apresentados ao mundo colorido: o garçom do bar Bill que sonha em ser pintor e se colore quando começa a pintar telas escondido e Betty, mãe dos irmãos que nunca teve um orgasmo e consegue um através da masturbação; são exemplos. No entanto, esses movimentos logo se alastram pela pacata vila e o confronto com as normas que regem aquele mundo ideal são colocados em cheque.

Pode-se ver esse fenômeno quando o prefeito da cidade é acionado para que como líder dessa comunidade traga a ordem de volta. A exemplificação disso é mostrado na cena em que George conta aos amigos que chegou em casa certo dia e não mais encontrou sua comida pronta. “Se George não encontrou o jantar dele, qualquer um pode ser o próximo”, resmunga um dos amigos.

Além disso, o prefeito cita o caso de um jovem que decidiu abandonar seu emprego, de uma esposa que queria adquirir uma cama maior para sua casa já que todas eram de solteiro e ainda a esposa de um amigo que não havia passado uma camisa direito chegando a queimá-la.

Para acabar com essas ameaças à sua estrutura de vida agradável, ele busca reforçar os tabus vigentes e a criação de novos, ou seja, novas leis para que a forma de organização social que estava até então estabelecida se mantivesse. Entretanto, a cidade havia sido dividida entre os que queriam a mesma vida de sempre e os que queriam o novo. Dois grupos, duas organizações e uma guerra movida por tabus.

Estes resumos de cenas nos ajudam a compreender alguns conceitos freudianos de totem e tabu (FREUD, 2006b, v. 13) no sentido de que Revista da SBDG – n.9, p. 7-16, novembro de 2019 13 estão arraigados à cultura e podem ser difíceis de serem modificados.

Em outra cena do filme, quando o grupo dos pretos e brancos (P&B) se revoltam com o grupo dos coloridos, estão presentes a animosidade e a agressividade por parte daqueles, já que os transgressores coloridos optaram por desbloquear alguns tabus que aquela sociedade não aceitava. Com isso, surge a rivalidade e tem-se um perigo para aquela organização dividida e assim pode-se relacionar com as afirmações de Freud (2006b, v. 13) sobre os transgressores darem luz aos tabus.

Diante dos acontecimentos relatados percebe-se que romper com os tabus gera consequências e uma possibilidade de se ser rechaçada pelo grupo. Nota-se isso na cena que a mãe Betty fica colorida e tenta esconder sua cor para não ser mal vista pelas amigas, marido, família e pelo prefeito. Nesta perspectiva lembramos da seguinte frase de Freud (2006b, v. 13): “A violação de um tabu transforma o próprio transgressor em tabu.”

Ainda sobre a ótica de papeis socioculturais, para Freud (2006b, v. 13), os totens representam as relações sociais e temos no filme uma organização social na qual as mulheres precisam esperar seus maridos em casa com a comida pronta, além de serem esposas e mães adoráveis e reprimir os desejos. Já os jovens até podem ter pequenas transgressões, mas nada muito extremo, como ouvimos nas falas de um dos personagens homens na barbearia: “Tudo bem ir à Alameda dos Prazeres, mas agora ir à biblioteca? Onde isso vai parar?” e “Alguém tem que fazer alguma coisa”.

Porém mudanças podem trazer resistências. No início do filme, David que assume o papel de Bud, diz a sua irmã Jennifer que ela não poderia mexer na história daquelas pessoas pelo fato delas serem felizes assim. No entanto, ela mostra a ele que aquela população tem vários potenciais e que elas querem experimentar cores diferentes, ou seja, jeitos diferentes de ser, sentir e perceber.

Nota-se ainda questões de Freud (2006b, v. 13) relacionadas a ansiedade. Exemplo disso é que o grupo P&B estava ansioso, inquieto, indignado e violento com os coloridos, mas no final do filme, quando acontece o julgamento de Bud e Bill, as pessoas começam a ficar coloridas, pelo fato de terem seus sentimentos acionados com as provocações do garoto. A mudança então acontece para todos e os ânimos se acalmam aos poucos.

Le Bon (2008) também fala que nos grupos, geralmente, aflorarão características inconscientes. Vemos isso no movimento do colorizar-se, pois as pessoas começam a expressar seus desejos, sejam eles sexuais, artísticos ou literários antes adormecidos e até inconscientes. Vindo à tona as inibições individuais, os instintos e a primitividade.

Freud (2006a, v. 18) remete a semelhança dos grupos com os povos primitivos e com as crianças. Já Le Bon (2008) pontua sobre as características primitivas de falta de controle emocional na qual antipatia rapidamente transforma-se em ódio.

Estas características podem ser percebidas claramente nas placas que os P&B colocaram em seus estabelecimentos pós – divisão dos grupos e em prol da volta da ordem vigente que dizia: “Não aceitamos coloridos”. O que pode ser compreendido como antipatia. Na sequência esta característica de não aceitação transforma-se em depredação e violência contra os estabelecimentos e contra as pessoas coloridas o que pode ser interpretado como resistência a mudança e ao novo.

Fica evidente no filme que o grupo dos coloridos se permitiram experiências novas e lutaram para continuar as experimentando e assim terem seu colorido legitimado, representando uma coragem advinda do próprio grupo. Da mesma forma, as características de agressividade e crueldade dos P&B que, em massa, atacaram os coloridos; parece algo que estas pessoas não fariam isoladas. Estes atributos nos lembram o conceito de Le Bon (2008): não há soma ou média de características entre os indivíduos do grupo, mas sim a absorção de novas.

Le Bon (2008) diz ainda que o sentimento de responsabilidade que dá controle aos indivíduos tende a desaparecer. Isso é aparente no filme nas cenas em que as mulheres começam a fazer o que desejam e deixam a responsabilidade de cuidar 14 Revista da SBDG – n.9, p. 7-16, novembro de 2019 da casa e de serem mães e esposas impecáveis. O estar hipnotizado pode ser visto, pois não encontramos falas sobre planejamento e possíveis consequências. As pessoas simplesmente vivem o que desejam viver. Seja ir à biblioteca, à Alameda dos Prazeres ou afrontar os transgressores coloridos.

O sentimento de invencibilidade característico dos grupos (LE BON, 2008) é percebido tanto no grupo dos coloridos – que invadem o julgamento de Bud e Bill -, bem como na assembleia que se reúne para defender a moral e os bons costumes dos P&B que viviam até então em suas vidas agradáveis.

Ainda no quesito novas características, Le Bon (2008) pontua que as multidões são capazes de heroísmos e sacrifícios pelo grupo. Pode-se notar esses atos tanto no grupo dos coloridos – que brigam por sua liberdade – como no grupo dos P&B, representado aqui pela figura do prefeito que fazia articulações, defendia publicamente os seus interesses e os interesses daqueles que estavam se sentindo incomodados com as quebras de tabu.

Para McDugall (apud FREUD, 2006a, v. 18) o indivíduo experimenta no grupo um contágio emocional que não teria isoladamente. Percebe-se esta perspectiva quando a mãe Betty logo no início do filme apresenta um interesse pelo dono do bar Bill, mas sufoca esse desejo e somente mais tarde, por contágio, o deixa aflorar.

Freud (2006a, v. 18) fala dos laços de identificação. No filme percebemos como eles foram importantes para que muitas das mudanças acontecessem. Em uma cena a mãe dos irmãos se permite seguir os seus desejos e fazer experiências diferentes porque confia no que os filhos lhe dizem. Betty vai à lanchonete e encontra Bill pintando. Fica emocionada com o que vê e uma lágrima remove sua maquiagem de disfarce. Bill percebe e sugere a Betty que ela deveria se mostrar como esta agora: colorida e, delicadamente, ele inicia a remoção da maquiagem dela. E a partir daí ela passa a assumir a nova identidade.

Freud (2006a, v. 18) fala também da redução da capacidade intelectual do indivíduo quando em grupo. E McDougall (apud FREUD, 2006a, v. 18) oferece como alternativa a esta questão que a atividade intelectual seja concentrada em alguns membros do grupo. Este desdobramento é percebido no filme, pois são Bud e Bill que engendram as formas de atuação do grupo dos coloridos.

O mesmo se observa nos P&B que se deixam guiar cegamente pelo prefeito e não questionam se a vida realmente era tão agradável como ele anunciava em seu discurso. Aqui também se evidenciam as características citadas por Le Bon (2008) de credulidade e ingenuidade do grupo que acredita no seu líder sem contestar.

Segundo a teoria de Le Bon (2008), a pessoa que deseja ser líder deve impressionar, fazer afirmações violentas, exagerar na fala e nos gestos, repetir e não exigir raciocínio das pessoas. Como citamos acima, um exemplo de liderança no filme é a exercida pelo prefeito da cidade. Já Mary Sue e Bud tornam-se líderes, mas de um jeito diferente, pois eles fazem coisas atípicas que acabam por reverberar naquela população como o sexo de Mary Sue na Alameda dos Prazeres ou seus questionamentos à professora; enquanto que Bud sabe como apagar um incêndio e conta as histórias que não estavam nos livros. Diante disso, as pessoas começam a se encantar, a questionar e a efetivamente buscar uma vida diferente, surgindo uma nova forma de liderança.

Le Bon (2008) diz que as características individuais podem ser destruídas ou potencializadas. Vemos as características artísticas de Bill potencializadas, o mesmo acontece com o perfil de liderança de Jennifer.

A menina Jennifer é realmente um caso de estudo e mostra-se um desafio até para a teoria das massas (FREUD, 2006, v. 18), se pensarmos que a tendência é as pessoas se nivelarem ao perfil do grupo. Ela, no entanto, consegue ter as mesmas ações como Mary Sue, mesmo sendo diferente de toda a cidade. Por outro lado, seu irmão Bud é uma clássica representação da teoria de Le Bon (2008), pois inicia sua atuação como um clássico morador de Pleaseantville, ou seja, deixa suas potencialidades desaparecem por um tempo em busca de se enquadrar.

Além das características que diferenciaram Mary Sue das outras meninas da série, ela pode ser percebida como muito corajosa se levarmos em consideração a ideia de McDougall (apud FREUD, 2006a, v. 18): revela-se perigoso se opor ao grupo. E essa afirmativa faz muito sentido tendo em vista que os coloridos sofreram grande violência moral e psicológica, pois foram xingados, ridicularizados e no caso de Bill seu estabelecimento foi destruído. E o pai George que não conseguiu sair do seu padrão convencional por ignorância ou reatividade à mudança.

O mesmo poderia ter acontecido com Jennifer e David quando entraram na série sem saber o que fazer, pois inicialmente a ideia foi de que deveriam seguir o roteiro dos personagens Mary Sue e Bud até uma nova aparição do técnico de TV para lhes dizer como poderiam sair do mundo fictício e voltar a realidade norte-americana. Mas Jennifer ousa e imprime um padrão diferente de comportamento em Mary Sue e convence David a fazer o mesmo com seu personagem Bud. E assim começa a revolução das cores.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este filme em conjunto com os conceitos dos teóricos Freud e Le Bon, nos ajudam a pensar sobre elementos que estão presentes nas representações de grupos denominados aqui de P&B e dos coloridos, e nas relações entre a estagnação e a mudança o normativo e o disruptivo.

Tivemos a oportunidade de perceber a força de um grupo e da liderança, pois se a cidade não tivesse aceitado novos líderes, teria saboreado apenas os mandos do prefeito e assim nada de novo teria acontecido. Mesmo que tudo pareça já escrito e determinado é possível alterar os universos. A jovem Jennifer ou Mary Sue tem esse papel: romper com o regimental.

A teoria do contágio emocional que trouxemos na análise se mostrou presente quando começaram os questionamentos, papel até então da jovem Jennifer ou Mary. Mas, como algo que se alastra, as indagações começam e com elas vem a novidade.

Vimos através do filme que o mensageiro do novo é absorvido pelo grupo de forma até egoísta, pois assim se torna possível deter esse conhecimento e, consequentemente, realizar a ruptura com o de sempre. Mas percebemos também que o ato de mudar ou de promover mudanças não é tarefa fácil, pois mexer na tradição, nos valores, nos totens e tabus de uma sociedade pode ser muito perigoso, além de gerar ansiedade, ódio, violência e segregações.

O muro de proteção nesse cenário pode ser o próprio grupo. De um lado o grupo pode dar força para superarem as adversidades e não sucumbirem aos percalços, motivando uns aos outros. E por outro, o grupo pode fechar o círculo de forma que a visão externa se torne impossível ou inacessível.

Uma das falas do filme que merece destaque é: qualquer um pode ser o próximo. Salientamos essa sentença, pois as características individuais quando bem desenvolvidas afetam o grau de influência que o grupo exercerá no indivíduo. O poder de um grupo, como vimos no filme, é significativo na forma de construção da sociedade e na manutenção de seus valores.

Uma vez que a mudança for feita será possível mudar de volta? O garoto Bud faz esse questionamento ao pai no fim da película: “quer mesmo que tudo volte a ser como era, pai?”.

Estas são apenas algumas das considerações possíveis, e não se encerra aqui a discussão sobre a potencialidade dos grupos nos processos de mudança.

Uma das possíveis provocações que fica refere-se a refletir sobre o quão distante ou próximo da nossa realidade estão os conflitos produzidos por David e Jennifer como personagens de uma série dos anos 50?

Será que poderíamos falar de um novo padrão de liderança que está surgindo na atualidade, calcado em valores e nas formas de se relacionar?

O quanto de dicotomia, ansiedade pela diferença, resistência, ódio e contágio emocional estão presentes nos grupos que fazemos parte?

A sociedade brasileira organizada em grupos reverberados pelas redes sociais são agentes de mudança ou mantenedores da ordem e dos valores normativos?

Portanto, trazemos a frase final do filme que consideramos também o motivador de inquietações das massas, dos totens e tabus da atualidade presente nos grupos que circulamos: o que vai acontecer agora?

 

Alexandre Tremea
Denise Heidi Süss
Paulo Rogério de Souza
Queila Coimbra

 

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer,
psicologia de grupo e outros trabalhos (1920-
1922). Rio de Janeiro: Imago, 2006a. v. 18.
Disponível em: <http://conexoesclinicas.com.br/
wp-content/uploads/2015/01/freud-sigmund-obras-completas-imago-vol-18-1920-1922.pdf>.
Acesso em: 2 jan. 2018.

FREUD, Sigmund. Totem e tabu e outros trabalhos
(1913-1914). Rio de Janeiro: Imago, 2006b. v. 13.
Disponível em: <http://conexoesclinicas.com.br/
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Acesso em: 2 jan. 2018.

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. 1.
ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

PLEASANTVILLE – a vida em preto e branco. Direção: Gary Ross. Intérpretes: Tobey Maguire, Jeff
Daniels, Joan Allen. Estados Unidos da América:
New Line Cinema, 1998. Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=kM3uVmvcATI>.
Acesso em: 12 jan. 2018.

Veja também