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Fatores grupais que implicam na invisibilidade social

1 Introdução

                 Passar e não enxergar, olhar e não ver. O termo invisibilidade social vem sendo amplamente pesquisado a fim de tentar dar conta do entendimento do comportamento de indiferença entre os seres humanos. A curiosidade pela temática impulsiona a busca por compreender os fatores grupais envolvidos em tal. Embasado pelo conhecimento da física – invisibilidade significa objeto não visível, objeto com ausência de luz, que não reflete. Correlacionando esse termo ao comportamento do ser humano, a inquietude aparece com questionamentos. O que move o ser humano a não observar ao seu redor? O que leva o ser humano a ignorar? O que causa essa indiferença?

Considera-se que inúmeros fatores intrínsecos ao ser humano podem estar implicados nesse comportamento onde por hora se exclui da percepção aquilo que não quer se ver.

Da mesma forma, entender o impacto desse comportamento na vida do invisível auxilia na compreensão da permanência desse fenômeno e os rumos dessa realidade atual que caracteriza uma cegueira coletiva onde todos olham e ninguém vê. Esse movimento interfere no desenvolvimento das relações grupais e nas formas de relacionamentos.

Assim, esse objeto de estudo visa identificar as variáveis implicadas na invisibilidade social como forma de compreender o fenômeno grupal a partir da análise do livro “O futuro da Humanidade”, do psiquiatra e escritor brasileiro Augusto Cury.

O livro oferece uma oportunidade de adentrar na sociedade e compreender a vida dos marginalizados, ocultos da sociedade, através da visão de um jovem estudante de Medicina que se depara com a falta de sensibilidade com a história dos humanos e embarca numa busca a conhecer o que não é visto.

Assim, o objetivo geral desse trabalho é compreender os fatores grupais que permeiam a invisibilidade social através da análise de trechos pré-selecionados no livro que evidenciam a problemática. Para tanto, elencamos os seguintes objetivos específicos: analisar a forma como a cultura do individualismo está relacionada com a invisibilidade social; constatar que existem movimentos grupais mantendo a invisibilidade social.

Esta pesquisa desenvolve-se orientada pelas seguintes questões: Como a cultura da individualidade está vinculada à invisibilidade social? Quais os rumos desse comportamento no futuro das relações grupais? Por que o ser humano olha sem ver e se torna indiferente ao outro?

2 Globalização e individualismo

Para falarmos de invisibilidade social, entendemos ser importante conceituarmos alguns termos que nos ajudem a compreender melhor o tema proposto neste trabalho, tais como a globalização e a individualização.

Segundo Salaini (2012), o evento da globalização caracteriza-se pelo fato de trazer consigo um processo de construção e desconstrução das identidades de indivíduos e grupos. Os limites dos sistemas de crenças aos quais os sujeitos se vinculam são constantemente enfraquecidos e atravessados nesses contextos, conforme menciona o autor.

Para Vieira (2002), as ligações entre o local e o global passaram por uma aceleração sem precedentes, acarretadas pelo rápido desenvolvimento da comunicação, das tecnologias das informações e dos transportes. A mudança de pessoas e bens pelo mundo, bem como a circulação de informações, alcançou níveis nunca vistos antes.

Vieira (2002) ainda destaca que a globalização é normalmente atrelada a processos econômicos, como a movimentação de capitais, a expansão dos mercados ou a ampliação produtiva em escala mundial. Reforça ainda que ela impacta em uma nova configuração da economia mundial, como resultado geral de velhos e novos elementos de internacionalização e integração.

Neste contexto, Vieira (2002) menciona que a globalização redimensionou as percepções de espaço e tempo. Em segundos, notícias dão volta ao mundo, capitais entram e saem de um país por transferências eletrônicas, novos produtos são produzidos ao mesmo tempo em muitos lugares e em nenhum deles isoladamente. Estes fenômenos globais influenciam fatos locais, e vice-versa, e ainda apresentam a globalização como um evento que se contrapõe aos laços de solidariedade existentes nos planos local e nacional.

O século XX conduziu a economia global a uma encruzilhada: o processo de reestruturação econômica levou o mundo em desenvolvimento à fome, e grandes parcelas da população ao empobrecimento. O novo modelo financeiro internacional parece nutrir-se de exclusão social e degradação ambiental.

Da mesma forma que a nossa época é a do desenvolvimento de uma nova economia de mercado, também somos testemunhas de uma nova era do individualismo. Uma interrupção frontal como o pensamento das antigas civilizações, organizadas de uma forma abrangente com fundamento intocável, o individualismo constitui um conjunto de valores que colocam o indivíduo livre e igual como eixo central da cultura, como fundamento da ordem social e política conforme destaca Lipovetsky (2011).

Ainda nesse sentido, Lipovetsky (2011) explica que as características desse novo individualismo centrado na preferência da relação de si são incontáveis. Destaca ainda que em paralelo a esta autonomia surge uma nova relação com o corpo: obsessão com a saúde, culto do esporte, boa forma, magreza e cirurgia estética.

A sociedade do consumismo é a do “sempre mais”, mas esta não esta diretamente relacionada ao aumento da felicidade. Os indivíduos almejam ganhar mais dinheiro, pois a oferta não cessa de ampliar-se, mas, uma vez atingido um certo nível de renda, o sentimento de felicidade não cresce mais quando surgem rendas extras. Só os desprovidos se declaram mais felizes ao ver aumentar seu nível de vida, menciona Lipovetsky (2011)

Velho (2004) destaca que o individualismo está associado ao prestígio, uma situação de certa estabilidade financeira. As regras e valores estão transparentes e situados dentro de um modelo com hierarquias. A ascensão está associada à mudança, transformação, tanto em termos de trajetória individual como no ambiente social. Considera ainda que a construção da identidade é problema universal da sociedade. Em todo grupo, tradicional ou moderno, definem-se e classificam-se categorias sociais. As noções de prestígio e ascensão social parecem estar vinculadas, exatamente, a diferentes formas de viver e lidar com a questão da individualidade na sociedade moderna. Fazem parte, por sua vez, de um processo mais amplo de construção social da identidade.

Heller (2000) nos fala que a vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem independentemente da sua função ou cargo de trabalho intelectual e físico. Ninguém consegue identificarse com sua atividade humano- genérica a ponto de poder desligar-se inteiramente da cotidianidade. A vida cotidiana é a vida do homem pleno, ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade.

3 Invisibilidade social

O conceito de Invisibilidade Social tem sido aplicado, em geral, quando se refere a seres socialmente invisíveis, seja pela indiferença, seja pelo preconceito, o que nos leva a compreender que tal fenômeno atinge tão somente aqueles que estão à margem da sociedade.

Existem diversos fatores que contribuem para que a invisibilidade social ocorra: histórico, cultural, social, religioso, econômico, estético etc. É o que acontece, por exemplo, quando um mendigo é ignorado de tal forma que passa a ser apenas mais um objeto na paisagem urbana.

Segundo Laing (1986), “não podemos fazer o relato fiel de uma pessoa sem falar do seu relacionamento com os outros”. A identidade é definida pela relação do indivíduo com os que estão à sua volta, em seu convívio. É na relação entre o EU e o OUTRO que se constrói a identidade do EU.

Guattari, por sua vez, defende que “a singularidade é um conceito existencial; já a identidade é um conceito de referenciação, de circunscrição da realidade a quadros de referência, quadros estes que podem ser imaginários” (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 68). Enquanto a identidade diz respeito ao reconhecimento, a singularidade articula todos os elementos que costumeiramente constatamos quando definimos a identidade do indivíduo, isto é, como nos sentimos, nossos desejos, nossas atitudes em determinados contextos, em suma, tudo o que diz respeito ao nosso ego.

Em análise geral, evidencia-se que é a sin- Revista da SBDG – n.8, p. 30-41, maio de 2018 33 gularidade que quando ocultada em sua percepção pelo outro, caracteriza-se “Invisibilidade Social”.

Porto (2009) em seu artigo “Invisibilidade social e a cultura do consumo” ao se referir aos trabalhadores sem identidade diz que:

Quando, a caminho do trabalho, passamos por um gari fazendo a varredura de nossa calçada, o identificamos por seu uniforme como executante de tal função, mas não o notamos por suas singularidades. Ao contrário, o vemos quase como se fosse parte do mobiliário urbano (Porto, 2009, p.2).

A partir do exposto, pode-se definir a invisibilidade social como sintoma de uma crise de identidade nas relações entre os indivíduos das sociedades contemporâneas, considerando-se os efeitos da estruturação sócio-econômica advinda do Neoliberalismo, que tem como protagonista a “Cultura do Consumo”, na qual “você é o que você consome”. Tomando o aspecto sócio-econômico como bússola para a defesa de uma teoria que justifique o fenômeno da Invisibilidade Social nos tempos atuais.

Costa (2008) em seu trabalho sobre invisibilidade social com garis retrata o sentimento dos invisíveis frente ao ato de ser ignorado: “a cegueira de gente que não vê gente é traumática, causa angústia. A cegueira de gente que não vê causa humilhação”. (p.15)

A partir do relato de Costa (2008), entendesse que essa cegueira pode ser caracterizada como uma cegueira pública quando um homem desaparece para outro configurando assim um evento psicossocial característico da sociedade pós moderna, referindo assim dois fenômenos intrinsecamente relacionados com a cegueira: humilhação social e reificação (humanos reduzidos).

Ainda segundo Costa (2008),

a invisibilidade é o resultado de um processo histórico de longa duração. Rebaixa a percepção de outrem, especialmente a percepção de alguém vinculado à forma baixa do trabalho assalariado, o trabalho desqualificado, alienado e alienante. (Costa, 2008, p.15)

Filho (2005) afirma que a invisibilidade do povo teve sua evolução na história e foi marcada pelos golpes de espoliação e servidão com origem nos escravos africanos e nativos e posteriormente sobre os imigrantes baixo-salariados. (p.22)

Considera-se então que a invisibilidade social está constituída a partir de aspectos sociais e psíquicos, sendo mantida por padrões sociais.

Costa (2008) aponta ainda que esse fenômeno atinge também a comunicação dos seres humanos, trazendo prejuízo e reduzindo as trocas a aspectos econômicos onde isolam-se do racional os aspectos subjetivos e emocionais dos sujeitos, “os assuntos emagrecem e, anoréxicos, arrastam-se em direção ao que parece essencial: quanto custa, quando entrega, como se paga, que garantia é oferecida. (p.17)

De Sá Pinto Tomás (2008) entende a invisibilidade sobre uma perspectiva fenomenológica onde este é um sintoma de uma sociedade do espetáculo na qual vivemos, onde invisibilidade significa insignificância. Defende que os invisíveis são criados a partir de uma percepção coletiva. O criador do termo “percepção coletiva”, Émile Durkhein (1893), considera que o fenômeno é um regulador dos conhecimentos e convicções comuns aos membros de uma sociedade, ou seja, os homens partilham de visões de mundo sem questioná-las e passam a vê-las como verdade.

A mesma autora confirma em seu trabalho que,

a percepção nos dá o ser, então a não percepção do outro traduz-se pela inexistência do ser. O que conduz a pensar que a alteridade de invisível é inexistente. Por outras palavras, a percepção como a memória, é seletiva” (De Sá Pinto Tomás, 2008, p.7).

Sendo assim o homem pode escolher aquilo que quer ver.

4 Caracterização de grupos

Passamos a maior parte de nossas vidas convivendo em grupos, seja na família, no trabalho, com colegas. Estamos sempre compartilhando nosso dia a dia com outras pessoas.

O homem vive, inevitavelmente em gru- 34 Revista da SBDG – n.8, p. 30-41, maio de 2018 pos, que podem ser permanentes ou temporários, criados acidentalmente ou deliberadamente. Os grupos podem exercer diversas influências sobre os indivíduos, como felicidade, tristeza, raiva, ansiedade, preocupações. Estas influências podem ter efeitos ligeiros e momentâneos ou duradouros e radicais e que podem proporcionar ao homem sentimentos de “status” ou de frustração, bem como, de aceitação ou rejeição.

De acordo com Zimerman (1997), “o ser humano é gregário por natureza e somente existe, ou subsiste, em função de seus inter-relacionamentos grupais” (p. 132). Sempre, desde o nascimento, o indivíduo participa de diferentes grupos, numa constante dialética, entre a busca de sua identidade individual e a necessidade de uma identidade grupal e social.

A estrutura dos grupos é importante para a compreensão dos acontecimentos que neles ocorrem. O tipo de grupo, a descrição de suas propriedades, as formas de comportamento de grupos são elementos que permitem a interpretação dos fenômenos em estudos (Moscovici, 1965).

Pichon (1998) define o grupo como um conjunto de pessoas, que ligadas no tempo e espaço, articuladas por sua mútua representação interna, se propõem explícita ou implicitamente a uma tarefa, interatuando para isto em uma rede de papéis, com o estabelecimento de vínculos entre si. O sujeito social se constitui na relação do outro.

Conforme Amaral (2007), os grupos podem ser classificados como primários ou secundários. Os grupos primários são aqueles constituídos para a satisfação das necessidades básicas das pessoas e a formação de sua identidade. Caracterizando-se por fortes vínculos afetivos e interpessoais, como por exemplo a família.

Os grupos secundários são aqueles constituídos para a satisfação das necessidades sistêmicas ou de interesses de grandes grupos ou classes. Sua identidade é construída pelo papel social que o individuo desempenha e o poder esta centrado na capacidade e na ocupação social de seus membros. O relacionamento é marcado pela formalidade e impessoalidade.

Dessa forma, podemos entender que um grupo é um todo dinâmico. Apesar de ser um conjunto de pessoas, não é simplesmente a soma dos participantes, o que significa que qualquer mudança que ocorra em um dos participantes vai interferir no estado do grupo como um todo. Quando um grupo se estabelece, uma série de fenômenos passa a atuar sobre as pessoas individualmente e, consequentemente sobre o grupo, é o chamado processo grupal.

O processo grupal segue uma “espiral dialética”, isto é, a cada nova situação, surgem formas de se lidar com ela. O que está estruturado precisa ser revisto para que o grupo se reestruture em nova situação. Assim cada ciclo abrange e supera o anterior (Pichon, 1998).

Dessa forma, vários fenômenos passam a atuar sobre as pessoas individualmente e, consequentemente, sobre o grupo.

Para Amaral (2007), em quase todos os grupos sociais é possível se estabelecer o status de cada integrante bem como o papel que lhe cabe desempenhar. Papel Social é um modelo de comportamento definido pelo grupo. Nenhum grupo social pode ter bom funcionamento sem estabelecer papéis para seus integrantes. É certo que a diversidade de papéis a serem desempenhados pelos participantes de um grupo frequentemente causam tensão e conflitos entre seus membros.

Para Pichon (1980), um grupo opera melhor quando há em seu conjunto de pessoas pertinência, aflição, centramento na tarefa, empatia, comunicação, cooperação e aprendizagem. A pertinência pode ser vista como a qualidade da intervenção de cada um no grupo; a afiliação é a intensidade do envolvimento do indivíduo no grupo; o centramento na tarefa é o eixo principal da cooperação, referese ao grau de interação com que um participante mantém o vínculo com o trabalho a ser efetuado, e avalia a dispersão e a realização de esforço útil do indivíduo; a empatia é o modo como o grupo pode ganhar força para operar cada vez mais significativamente; a comunicação é essencial para que haja entrosamento; a cooperação é o modo pelo qual o trabalho ganha qualidade e operatividade; a aprendizagem é o resultado do trabalho e deve ser essencialmente colaborativa.

Portanto, consideramos que dentro de um grupo é de suma importância que os papéis circulem pelos membros para que oportunize o crescimento grupal, podendo assim fazer com que o grupo realize a sua tarefa de amadurecimento.

5 Sociedade líquida

“Corremos sobre gelo fino. Se pararmos ou diminuirmos a velocidade, o gelo se rompe e nós morreremos. Então corremos. Não importa para onde, o importante é correr. E rápido.” (Zygmunt Bauman, 2004)

Esta analogia feita pelo sociólogo Bauman retrata os tempos atuais, que chamamos de pósmodernidade ou da modernidade liquida.

Todos corremos sem saber para onde e, por isso, muitas vezes atropelamos aqueles que fazem parte de nossas vidas. É assustador imaginar o que fazemos com aqueles que desconhecemos. Aqueles que por muitas razões se tornam invisíveis à sociedade, mas que são pessoas como nós, pois por dentro somos todos exatamente iguais.

Ainda bem que para justificar toda essa pressa e falta de atenção para com o outro, temos o “santo” celular com acesso a internet que nos deixa conectado 24 horas por dia, e assim estamos conectados com todos ao mesmo tempo.

Antigamente, o ditado dizia: em terra de cego quem tem um olho é rei! Neste novo momento, podemos adaptá-lo mais ou menos assim: em terra de whatsapp, quem recebe um telefonema é rei, retratando assim a falta de aproximação entre os relacionamentos humanos.

Em amor líquido, o autor, Zygmunt Bauman (2004) procura investigar porque as relações humanas estão cada vez mais flexíveis, gerando níveis de insegurança que aumentam a cada dia. Os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em “rede” (via internet e aplicativos de bate papo) do que a relacionamentos onde deixamos o celular de lado e conversamos com quem esta a nossa volta.

Existe uma necessidade muito grande de estarmos conectados e não nos damos conta de que com isso, podemos até aproximar quem está longe, mas afastamos quem está perto.

talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos como “relacionar-se” e “relacionamentos”, as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos doutos especialistas) em “conexões”, ou “conectar-se” e “ser conectado”. Em vez de parceiros, preferem falar em “redes”(BAUMAN, 2005, p.12)

Desta forma, a internet assumiu a função de conectar pessoas, formar redes de relacionamentos, cada vez mais flexíveis.

Bauman (2005) busca investigar as fragilidades desses novos laços humanos, bem como a insegurança que esses desejos conflitantes geram nos relacionamentos, tanto de estreitá-los como de mantê-los frouxos. Sobre isso, ele afirma que,

a misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e aprender. (BAUMAN, 2005, p. 8)

Segundo Bauman (2003), a modernidade líquida criou uma nova era nos relacionamentos, que estão cada vez mais fragilizados e desumanizados, reflexo disso pode ser o fenômeno mantenedor da invisibilidade social.

6 Metodologia

Delineamento

O delineamento utilizado para este artigo foi o qualitativo de tipo exploratório. As pesquisas exploratórias, na perspectiva de Gil (1999), visam proporcionar uma visão geral de um determinado fato. Para Minayo (2003), a pesquisa qualitativa trata basicamente do conjunto de técnicas a serem adotadas para construir uma realidade. Essa metodologia de pesquisa implica ainda em considerar o objeto em estudo, com suas características 36 Revista da SBDG – n.8, p. 30-41, maio de 2018 próprias, como um ser complexo e em constante transformação.

Esse delineamento foi escolhido pelo fato de o objeto de estudo ser um livro que apresenta a saga de um pensador ao conhecer a vida dos marginalizados da sociedade, neste caso, mendigos.

Fontes

A fonte utilizada foi o livro “O Futuro da Humanidade”. Diante da obra, partiu-se do princípio de que o contexto literário pode oferecer suporte para pensar as formas de relacionamentos vivenciais, bem como formas de subjetividade e comportamentos representados dentro de um contexto.

O livro foi escolhido por oferecer a oportunidade de visualizar o cenário dos excluídos sociais através de uma leitura poética e realística da sociedade atual.

Caracterização do Livro

Título Original: O Futuro da Humanidade – a Saga de um Pensador

Autor: Augusto Cury

 Sobre o Autor: Psiquiatra, pesquisador de psicologia e escritor. É professor de Pós Graduação e conferencista em congressos nacionais e internacionais

Ano: 2005

Tema: Romance

Resumo: Cheios de expectativa e tensão, os calouros da faculdade de Medicina ficam chocados ao encontrar, em sua primeira aula de anatomia, a triste cena de corpos não identificados, estendidos sobre o mármore branco.

Marco Polo, um brilhante e audacioso aspirante a psiquiatria, que não consegue aceitar a frieza com que os professores se referem aos corpos, dizendo que suas identidades não importam.

À procura de informações sobre esses personagens aparentemente sem passado, Marco Polo se depara com um mundo de sonhos frustrados, futuros desfeitos e esperanças perdidas. Quem o guia nessa jornada é o excêntrico Falcão, um mendigo que conhece a fundo a mente humana. Apesar da difícil situação em que vive, Falcão recupera a sua alegria inata ao conviver com o jovem sonhador.

Estimulado pelo novo amigo, o recém formado Marco Polo lança-se numa arriscada batalha contra professores e médicos de renome internacional para tentar mudar a abordagem clássica da psiquiatria. Marco Polo representa o que grande parte das pessoas gostaria de ser. Um personagem corajoso, dotado de uma imensa paixão pela vida e pelas pessoas, buscando recuperar os sentimentos de humanidade e solidariedade tão esquecidos nos dias de hoje.

Procedimentos

A leitura do livro foi feita de forma criteriosa a fim de identificar trechos que caracterizam a problemática levantada para esse estudo. Esses trechos foram selecionados em subcategorias, onde a Categoria 1, refere-se à Invisibilidade Social sendo vista no contexto. A Categoria 2, refere-se aos Rastros da Globalização e do Individualismo em nossa sociedade. A Categoria 3 refere-se à Liquidez Social, onde as relações humanos têm fracassado e os relacionamentos que pedem solidez, mostrando-se líquidos. A Categoria 4 refere-se ao Grupo Social comportando-se. A forma como a sociedade organiza-se para “não ver” os marginalizados. Os trechos sugeridos pelas categorias seguem:

Categoria 1

 INVISIBILIDADE SOCIAL VISTA

Que homem é esse que se esconde na pele de um miserável? (p.21)

Cada ser humano é uma caixa de segredos a ser explorada. Quando os excluímos, é porque não os entendemos. (p.26)

Não há ricos ou pobres, famosos ou anônimos, todos são seres humanos com necessidades internas semelhantes. (p.223)

Não é possível um milionário se misturar com este tipo de gente. (p.224)

Eu não mordo, madame! Também sou gente. (p. 226)

De todo o lixo produzido pela sociedade, o culto à celebridade é o mais estúpido. (p.229)

Categoria 2

RASTROS DA GLOBALIZAÇÃO E DO INDIVIDUALISMO

O ser humano se adapta a tudo, inclusive ao caos. (p.17)

A descoberta do mundo rico e profundo que se escondia atrás dos escombros da miséria de Falcão parecia loucura nas sociedades modernas, que valorizam muitíssimo a tecnologia e pouquíssimo a sabedoria. (p.28)

O ser humano atual não ouve o grito da sua maior crise. Cala sua angústia porque tem medo de se perder num emaranhado de dúvidas sobre seu próprio ser. (p. 82)

Apesar do salto da tecnologia, ela não resolveu os problemas humanos fundamentais. A violência, a fome, a discriminação, a intolerância e as misérias psíquicas não foram debeladas. A ciência é um produto do ser humano e não um Deus do ser humano. Use-a e não seja usado por ela. (p.82)

O sistema nos transformou em máquinas de consumir, uma conta bancária a ser explorada. Temos sidos escravos, vivendo em sociedades democráticas. (p.161)

Percebeu claramente que as coisas mais importantes da vida não podem ser compradas. Era riquíssima, mas sempre vivera na miséria. (p.213)

Quem vive para si mesmo só enxerga segundas intenções nos outros. (p.214)

Categoria 3

INDÍCIOS DE LIQUIDEZ SOCIAL

Como é fácil diverti-los. Até um palhaço de primeira viagem vira atração. (p.24)

A descoberta do mundo rico e profundo que se escondia atrás dos escombros da miséria de Falcão parecia loucura nas sociedades modernas, que valorizam muitíssimo a tecnologia e pouquíssimo a sabedoria. (p.28)

As sociedades modernas vivem tempos insanos. A serenidade é um artigo de luxo. (p.30)

Categoria 4

O GRUPO SOCIAL COMPORTANDO-SE

Você pode maquiar-se, vestir roupas rasgadas, cheirar mal, mas continuará sendo você mesmo (…) vocês crêem que a embalagem muda o valor do conteúdo. (p.25)

Marco Polo, o mundo em que você vive é um teatro. As pessoas frequentemente representam. Elas se observam o tempo todo, esperando comportamentos previsíveis. Observam seus gestos, suas roupas, suas palavras. A liberdade é uma utopia. A espontaneidade morreu. (p.26)

Marco Polo começou a entender o peso de uma pessoa excluída, os perigos de viver fora do modelo social. (p.32)

Nas ruas o poeta encontrou miseráveis como ele. Conheceu os incompreendidos, os dilacerados pelas perdas, os mutilados pela culpa, os transtornados pela psicose, os que são considerados lixo do sistema. (p.39)

O principio da corresponsabilidade inevitável demonstra que as relações humanas são uma grande teia multifocal. Revela que ninguém é uma ilha física, psíquica e social dentro da humanidade. Todos somos influenciados pelos outros. Todos nosso atos, quer sejam conscientes ou inconscientes, quer sejam atitudes construtivas ou destrutivas, alteram os acontecimentos e o desenvolvimento da própria humanidade. (p.87)

Os gestos incomuns e os movimentos involuntários daquelas pessoas agrediram os olhos dos ilustres convidados. Não estavam acostumados a conviver com pessoas diferentes. (p.230)

Referencial de Análise

A análise dos dados coletados baseou-se na Análise de Conteúdo de Bardin (1977/2000). Nessa perspectiva o método é definido como:

Um conjunto de instrumentos metodológicos cada vez mais sutis em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a discursos (conteúdos e continentes) extremamente diversificados – desde o cálculo de frequência que fornece dados cifrados, até a extração de estruturas traduzíveis em modelos (…). Enquanto esforço de interpretação, a análise de conteúdo oscila entre os dois pólos do rigor da objectividade e da fecundidade da subjetividade. (Bardin, 1977/2000, p.09)

De acordo com essa perspectiva, na análise de conteúdos, as informações coletadas no livro foram organizadas em três momentos diferentes: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. A seguir, segue a análise dos dados.

7 Análise dos dados coletados

Categoria 1 – Invisibilidade Social Vista

De acordo com os dados coletados para essa categoria, que se refere à invisibilidade social sendo vista no contexto social através dos trechos selecionados, pode-se dizer que a invisibilidade está basicamente relacionada a pessoas de nível econômico, social e escolar baixo, que evidentemente não fazem parte da sociedade de consumo, tão valorizada em nossa sociedade atual.

Esse fato faz com que estes passem a ser “vistos” como sujeitos sem identidade, uma vez que não oferecem nenhum benefício à sociedade na qual vivem, ou seja, não consomem. Contrapondo-se a isso, os dados mostram que na pele de todo miserável existe um sujeito. Segundo Freud (1915), “sujeito” é todo aquele ser que é provido de desejos e necessidades, principalmente pensante e guiado também pelo inconsciente, não sendo totalmente dono de seus anseios e desejos. Ao mesmo tempo, Lacan (1955), pensador da psicologia, refere que o sujeito nada mais é do que o eu, e explica:

O que o eu manifesta é tão somente a imagem do outro à qual me identifico e na qual me reconheço, e que, por isso mesmo é o lugar de minha alienação. O eu é uma imagem (significante imaginário) à qual me identifico e na qual me reconheço, mas que nada revela sobre o que sou, na medida em que, entre o que eu penso e o que eu sou, há uma hiância fundamental que permite que eu possa ser, a todo instante outro.”(Lacan, 1955, p. 127)

De acordo com essa consideração, a análise sobrecai sobre os rumos da singularidade nesse contexto, pois se o sujeito é parte de sua identificação com o outro e todos são seres em igualdade, aqui algo sobressai aos olhos como faltante, ou seja, falta-se ver a singularidade.

Constata-se assim que a singularidade na sociedade contemporânea tem perdido espaço para os bens de consumo, num contínuo que se retroalimenta em bens materiais e satisfação financeira e social. Em função desse movimento, deixa-se de lado a subjetividade do sujeito. Sobre subjetividade entende-se que:

a subjetividade se produz na relação das forças que atravessam o sujeito, no movimento, no ponto de encontro das práticas de objetivação pelo saber/poder com os modos de subjetivação: formas de reconhecimento de si mesmo como sujeito da norma, de um preceito, de uma estética de si.” (Filho e Martins, 2007, s/n)

Em outra linguagem, é a identificação de si próprio composto por todas as suas características que fazem com que cada um se difira do outro. Com base neste entendimento, pode-se compreender que a sociedade cria grupos de identificação, aproximando ou afastando seus pares, também, em função da singularidade. Filho e Martins (2007) referem ainda que os sujeitos modernos estão submetidos a formas históricas de subjetividade, prevalecendo a individualidade e os bens de consumo, reconhecendo-nos assim como sujeito quando somos simultaneamente competitivos, egoístas e condescendentes com aqueles que derrotamos nessa disputa capitalista.

Com esse entendimento levanta-se como fato que as diferenças em nossa sociedade atual são vistas mais como “problemas” do que como complementos, dando assim a ideia de sujeito incompleto, onde, ou o sujeito é livre e pode viver seus pensamentos, pagando para isso o preço da “marginalização”, ou passa a funcionar como um “ser social” sem poder expressar seus sentimentos e emoções para muitas vezes não ser “excluído” do sistema social. Nesse modelo, aceita crenças coletivas como suas próprias crenças e passa a viver sem questionar. Considera-se que de ambos os lados há um esvaziamento do sujeito em prol de um bem maior – permanecer como um ser socialmente aceito. Sendo assim, aqueles que não se enquadram ao “modelo social perfeito” estão à margem da sociedade, sendo considerados lixo social e como para todo o lixo, destina-se a exclusão, pois não quer-se sentir o “chorune”, para não precisar agir sobre ele. Assim mantêm a invisibilidade social, fedendo ao longe, preservando assim aquilo que é celebridade e brilha na sociedade.

Categoria 2 – Rastros de Globalização e Individualismo

A globalização possui vários entendimentos no que se refere às consequências e impactos na sociedade. As discussões são muitas, porém, elas estão relacionadas principalmente às mudanças econômicas trazidas, principalmente com a expansão dos mercados, reconfigurando a economia mundial.

A expansão da economia mundial encurtou as distâncias entre os países, fazendo com que os produtos e novas tecnologias sejam utilizados rapidamente por outras pessoas em um curto espaço de tempo. Esta velocidade com que acessamos as novidades acaba despertando uma tendência ao consumo cada vez mais forte na sociedade moderna.

A sociedade do consumo quer sempre mais e mais, isto faz com que as pessoas constantemente busquem a felicidade através das coisas materiais. Produtos e tecnologias assumem diretamente a responsabilidade pela nossa felicidade, relação esta, que na maioria das vezes, torna o ser humano dependente do prestígio e do status.

Esta busca acelerada pelo reconhecimento torna o ser humano obcecado no alcance de seus objetivos. Esquece que as mudanças vêm para facilitar o seu dia-a-dia e não para tornar as pessoas escravas dos avanços tecnológicos. Percebe-se que se prioriza a tecnologia ao invés de boas conversas, valoriza-se o material e não o bem estar que ele proporciona.

Tudo isto sustenta a idéia de que o valor da pessoa está no que ela aparenta ter e não na sua sabedoria (conhecimento, história, cultura). Percebe-se um esvaziamento nas relações interpessoais. A correria do mundo moderno não proporciona aos seus participantes momentos de aproximação e conhecimento, tornando distante um possível momento de troca de conhecimento e experiência fora do mundo competitivo que, quase sempre, está motivado a ganhar dinheiro.

Neste contexto, nota-se que as consequências trazidas pela globalização contribuem para o fenômeno da invisibilidade social, principalmente quando uma das consequências é o individualismo. Assim, o sujeito coloca como prioridade no seu cotidiano a busca constante pelo reconhecimento financeiro e beleza exterior, fatores estes que são determinantes para que a sociedade escolha quem passará despercebido diante de tantas mudanças enfrentadas pelo mundo moderno e globalizado. Com esse movimento, torna-se preocupado somente consigo próprio e com o acúmulo de bens e status, facilitando a exclusão daqueles que não estão dentro deste “padrão social”.

Categoria 3 – Indícios de Liquidez Social

De acordo com o material coletado, compreende-se que ser diferente no modelo no qual vivemos atualmente passa a ser uma “ofensa”. Essa “ofensa” se dá na forma de não ser permitido expressar seus sentimentos e emoções e até mesmo suas escolhas, uma vez que estes podem levar o sujeito à exclusão.

A sociedade atual tem sido desprovida de lazer e diversão em função do excesso de trabalho, compromissos e responsabilidades, pois o ser humano está em constante busca por bens de consumo, deixando de se preocupar com as coisas simples da vida, que lhe conferem satisfações diárias e duradouras. Esse dado confere que a simplicidade está fora de moda, confrontando a sofisticação com a simplicidade.

Frente a isso, as relações têm perdido a singeleza e o cuidado, sendo a serenidade dos humanos um artigo de luxo, pois poucos os têm 40 Revista da SBDG – n.8, p. 30-41, maio de 2018 em tempos de caos e acúmulo material.

Isso tudo gera incerteza e insegurança em relação a tudo que se vive, tornando assim os seres individualizados e indiferentes, pois não há porto seguro para construir suas vidas. Os relacionamentos apresentam uma liquidez aparente e podem ser dissolvidos a todo o momento. Para Bauman (2004), quando a qualidade das relações diminui, a busca por satisfação é constante. E essa satisfação normalmente é encontrada de forma mais fácil e rápida nos bens materiais, assim, deixando de lado as relações entre humanos. Com esse movimento, deixa-se de criar afinidade. A falta de afinidade gera descartabilidade, fragilizando as relações.

Categoria 4 – O Grupo Social Comportando-se

Os grupos se formam através das interações com o meio e funcionam como um campo de referências, onde o sujeito se integra e se reconhece. Para Silva (2002), o grupo é um espaço de apoio, trocas e reflexão, fazendo o trabalho de resignificar a história e a identidade de seus membros e, paralelamente, de reconstruir sua história e sua identidade coletiva.

Nesse contexto, quando falamos de identidade, estamos falando de quem somos, de nossos desejos, opiniões, dos nossos sonhos e se constitui através da internalização e da adoção de papéis, modelos e regras sociais ditadas pela sociedade e pela cultura de consumo. Identificamo-nos como membros de um grupo quando somos capazes de ver nossos próprios sentimentos e ações com o mesmo olhar com que os demais também veriam.

Para Laing (1986, p.78), In Porto, “a identidade é definida pela relação do indivíduo com os que estão à sua volta, em seu convívio. É na relação entre o eu e o outro que se constrói a identidade do eu”.

Quando há o sentimento de vergonha, humilhação, indiferença e negligência, o indivíduo se afasta do contato familiar, desta forma, os invisíveis sociais ou os marginalizados têm como tendência o isolamento ou a formação de grupos que lhe confiram uma identidade estável. Sabem que simplesmente passam despercebidos pela sociedade.

Muitos destes marginalizados passam despercebidos e já fazem parte da paisagem das cidades. Por mais cruel que possa parecer, ao se cruzar com eles, não se percebe sua presença. A banalização, como se estas pessoas perdessem a identidade a partir de mecanismos criados para despersonificá-los.

São desprovidos de status, glamour e reconhecimento social. Isto numa sociedade onde o nível de consumo de bens materiais é o agente determinador do posicionamento de cada participante nas classes sociais conhecidas. Geralmente não são percebidos nem como seres humanos, apenas como “elementos” que realizam trabalhos a que um membro das classes mais favorecidas jamais se submeteria. Muitos executam tarefas imprescindíveis à sociedade, fundamentais, sem o devido reconhecimento, sendo considerados desqualificados.

Vivem em um mundo paralelo à sociedade atual, onde a cultura do consumo dita as regras e quem não têm os recursos financeiros necessários, fica totalmente excluído do contexto estabelecido.

Em suma, a valorização social está condicionada ao sucesso e à posição dentro do contexto social. Caso contrário, quem é ou está desprovido das prerrogativas sociais estabelecidas pela sociedade de consumo vigente, torna-se mera sombra social. Em consequência disso, o que não é reconhecido não é visto.

8 Considerações finais

De acordo com o material levantado para esse artigo, fica evidente que os grupos operam através de processos de exclusão e discriminação, deixando muitas vezes de operar através da cooperação e reconhecimento do outro. Nesse sentido, entende-se que as formas de coesão e desintegração se fazem presentes na manutenção da invisibilidade social, pois conscientemente sabe-se que a exclusão não é correta, mas mesmo Revista da SBDG – n.8, p. 30-41, maio de 2018 41 assim busca afastar-se desse grupo de pessoas desprovidas de status. Todo esse movimento cria normas de funcionamento que definem: pessoas de classe social baixa, em profissões desfavorecidas e com baixa escolaridade são lixos da sociedade e devem ficar a margem dela, concluindo assim que a sociedade é cegada pelo status e pelo reconhecimento social. Esses, nesse cenário, mostram serem sintomas da sociedade contemporânea que sofre as consequências da cultura do consumo, onde prevalece o individualismo.

Em última análise, considera-se que o futuro da humanidade está ameaçado pela falta de afinidade e pelo não reconhecimento do outro como sujeito provido de necessidades e desejos, podendo, assim, propiciar o surgimento de outros sintomas sociais geradores de sofrimento ao ser humano.

 

Aline Cechinato
Priscilla Martins
Roberta Possebon Menegotto
Geancarlo Tolazzi

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Veja também