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Estratégias adotadas por coordenadores no enfrentamento da resistência em grupos

 

REVISTA SBDG 9 – ARTIGO 4

1 INTRODUÇÃO

 

A resistência é um fenômeno que vem sendo estudado há anos na psicanálise e que surge como um obstáculo no desenvolvimento individual e grupal. É conceituada por Freud como as ações de oposição ativa do indivíduo para não adentrar em questões do inconsciente. São diversas as causas e formas de manifestação da resistência que emergem nos processos de grupo (ZIMERMAN, 2004).

Destaca-se que a ocorrência da resistência pode estar relacionada com o exercício do poder ativo e seletivo, provocando a possibilidade de contra agir e contra selecionar. É importante ressaltar que a resistência é uma forma de manifestação do poder, como certamente há uma força por trás do impulso para resistir e a consequência do ato de resistência (ou experiência de um protesto) leva a uma resposta de poder (KÄRREMAN; ALVESSON, 2009).

Portanto, a oposição a novas descobertas ao próprio desenvolvimento grupal é um dos mecanismos de defesa que podem ser representados pela angústia e ansiedade que são vivenciadas de forma insuportáveis pelos indivíduos. Existem vários medos que estão por trás da resistência em se desenvolver, como medo de errar, da mudança, do julgamento, de perder o seu papel, de expressar emoções e diversos outros (OKUBO; LIMA; PEREIRA, 2014).

A oposição a novas descobertas, isto é, a mudança surge a partir de uma alteração de um estado anterior para um futuro e, muitas vezes pode estar acompanhada por desafios que ocorrem a partir de desequilíbrios (KRUGEL; FURINI; MAFFINI et al., 2017).

Neste sentido, a mudança pode ser vista como um resultado que pode afetar os indivíduos, fazendo com que estes tomem uma atitude que será influenciada por fatores complexos como a personalidade individual, elementos ocupacionais e o contexto a qual está inserido (JUDSON, 1969).

Os processos de mudanças nos contextos grupais resultam de esforços de desenvolvimento pessoal e grupal. A resistência à mudança é inerente aos processos de grupo sendo considerada uma fase prevista e natural, desde que represente um período transitório de adaptação. Porém, muitas vezes faz-se necessário que os coordenadores de desenvolvimento de grupos adotem estratégias para enfrentamento dessas resistências de modo a lidar com o desafio de uma situação e olhar diferentes (JUDSON, 1969).

Os coordenadores dos grupos de desenvolvimento enfrentam um dilema que é o de encontrar a medida adequada para estabelecer as intervenções sobre os conteúdos emergidos da dinâmica grupal que compreendem no foco científico e também emocional surgidas por meio do contato com o grupo (MOTA; MUNARI, 2006).

Assim, torna-se imprescindível conhecer as estratégias para enfrentamento da resistência adotadas por coordenadores em grupos de desenvolvimento, a fim de aperfeiçoar e promover um melhor desempenho do indivíduo nesses contextos.

Face ao exposto, para entendimento da problemática elucidada surgiu a seguinte questão: Quais são as estratégias adotadas por coordenadores no enfrentamento da resistência em grupos de desenvolvimento? Dessa forma, este estudo terá por objetivo identificar as estratégias adotadas por coordenadores no enfrentamento da resistência em grupos de desenvolvimento.

 

2 GRUPOS DE DESENVOLVIMENTO

Grupo de desenvolvimento, de acordo com Lewin apud Garcia-Roza (1974), corresponde a formação de uma estrutura psíquica única constituída pela soma das partes, indivíduos que constituem a soma. Além disso, parte do pressuposto de que um grupo é uma entidade ou uma formação que existe em si mesma, possui uma identidade específica e própria, estruturas, normas de comportamento e papéis a desempenhar pelos seus membros. Acrescenta-se neste entendimento, o grupo como resultado da união de seus integrantes mais importante e relevante do que seus indivíduos isolados (BROWER, 1996).

Por outro lado, o desenvolvimento grupal, 48 Revista da SBDG – n.9, p. 46-58, novembro de 2019 não deve ser considerado ou constituído por um processo feito de mudanças radicais. Trata-se de um progresso e desenvolvimento contínuo, no que diz respeito à sua estrutura interna, à cultura do grupo e aos processos de mudança que o grupo enfrenta (ARROW, 1997; SARRI; GALINSKY, 1974).

Pichon-Rivière (2012) ainda categoriza os grupos em dois grandes ramos: os grupos operativos e os grupos terapêuticos. Os grupos operativos operam em uma determinada tarefa de interesse coletivo e podem ser subdivididos em grupos operativos de ensino-aprendizagem, grupos comunitários e os grupos institucionais. Os grupos terapêuticos se subdividem em grupos de autoajuda e grupos psicoterápicos. Cada um dos tipos de grupos possui funcionamento e manejos técnicos com características próprias.

Na categorização dos grupos acredita-se que esses operam de duas formas especificamente contrastantes. Uma delas seria o grupo de trabalho que é associado a mentalidade e o grupo de pressupostos básicos relativo ao funcionamento. Essa classificação expressa as formas essenciais de pensar e sentir ou de evitar pensamentos e sentimentos reais verdadeiros que determinam a capacidade dos membros do grupo de se relacionarem uns com os outros em busca do propósito inicial para qual o grupo se constituiu (FRENCH; SIMPSON, 2010).

A essência dos fenômenos grupais é a mesma em qualquer tipo de grupo e, o que vai tornar explícito as suas diferenças são os objetivos para quais eles foram criados e compostos. Dentro dos grupos são desempenhados diversos papeis por cada membro, sendo na maioria das vezes uma escolha inconsciente e que integra a configuração do campo grupal (ZIMERMAN, 2001).

2.1 Resistência

A resistência, enquanto fenômeno não racional é conceituada por Freud (1996, p. 551) como ‘’tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência’’ e por Laplanche e Pontalis (1988, p. 595-6) como “tudo que nos atos e palavras do analisando, durante o tratamento psicanalítico, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente”, ou seja, “uma atitude de oposição às suas descobertas na medida em que elas revelam os desejos inconscientes” (OLIVEIRA, 2004. p. 9).

Portanto, o aparecimento da resistência surge de forma individual ou grupal, sendo as mais frequentes expressas pelo atraso e a falta, as tentativas de alterar combinações, os prejuízos na comunicação verbal com silêncio excessivo, a manutenção de segredos, excessiva intelectualização e outros (ZIMERMAN, 2000, p. 102).

A resistência em grupo pressupõe métodos mais profundos, pois ela está relacionada a objeção de novas descobertas que podem ser desagradáveis e dar consciência ao indivíduo e ao grupo, possibilitando-os a necessidade de opções novas. Ela também pode ser identificada na multiplicidade das configurações comunicativas, sendo a resistência a figura de um processo, que na sua integralidade concebe o grupo como um todo (RIBEIRO, 2007, p. 65).

As causas de resistência são diversificadas tanto a nível individual quanto grupal, como o medo da mudança e do novo, medo da depressão, medo da regressão, medo da progressão, predomínio de inveja excessiva, manutenção da ilusão grupal e outros (ZIMERMAN, 2000).

Em outra perspectiva, segundo Motta (1998, p. 05), há pessoas que não tomam a consciência e resistem devido as variações das práticas que tiveram no passado, onde os resultados foram pequenos. Além disso, enfatiza a resistência como o resultado de que a mudança, ao mesmo tempo em que promete um novo comportamento, desestabiliza o meio, pois submete os indivíduos a novas interpretações de sua realidade.

Dessa forma, o processo de mudança torna-se difícil, o que emerge a resistência que é caracterizada por desconfiança, incertezas e medos do ato de mudar (DIAS, 2012). Isso pode ocorrer porque os indivíduos possuem um comportamento e tendência natural de manter o estado de conforto e que demanda menos trabalho e/ou movimentação. Assim, enfatiza-se que a resistência possui causas que podem impedir o processo de mudança individual e grupal.

Como exemplo das causas de resistência tem-se a inércia do grupo onde o comportamento do grupo pode ser um limitador; manifestada em segurança a uma ameaça à estabilidade vigente; medo do desconhecido no qual proporciona uma sensação de insegurança, incerteza e medo; ameaças ao convívio social, marcado pelas amizades e relacionamentos sociais; mudança de hábito; dificuldade de reconhecer a necessidade de desacomodar; inércia estrutural relacionada à estrutura organizacional; ameaça ao poder existente na qual, as relações de poder podem ser ressignificadas; experiência anterior de mudança mal sucedida e projeção do futuro baseada na vivência passada (ALMADA; POLICARPO, 2016).

2.2 Papel do coordenador ou facilitador de desenvolvimento dos grupos

Os grupos de desenvolvimento não são constituídos apenas pela tarefa, mas também pelo coordenador/mediador que, por não estar imerso na situação vivida, consegue ter uma visão de distância que lhe permite captar aspectos mais amplos e profundos (ANDALÓ, 2006).

No contexto do desenvolvimento de grupos, o coordenador ou facilitador constitui-se como um interlocutor qualificado, na medida em que dispõe de conhecimentos específicos, que lhe permitem funcionar como desafiador do grupo em direção ao crescimento e superação de seus impasses e dificuldades. Desta forma, o coordenador/facilitador encontra-se em um papel diferente do grupo. Ele possui papéis contraditórios e complementares em relação ao papel grupal. Entre estes papéis está o encorajamento à espontaneidade e a desinibição, na medida em que o coordenador oferece um papel de autoridade que transmite segurança e respalda a ação grupal (ANDALÓ, 2001, p. 135).

A ação do coordenador/facilitador está pautada por um processo de análise que vem de uma leitura crítica da realidade, isto é, análise da causa raiz a fim de provocar reflexão, levantar dúvidas, problematizar o que está naturalizado ou estagnado como verdadeiro, denunciar as contradições e apoio o grupo a pensar e encontrar as suas respostas e assim, construir o seu crescimento e desenvolvimento (ANDALÓ, 2006).

Assim, diante do papel que o coordenador/ facilitador possui, faz-se necessário que este tenha um papel de vislumbrar as atitudes e as ações tomadas pelos membros e grupo diante de um processo de mudança no que diz respeito à sua percepção do processo e de suas consequências por meio da seleção de estímulos, organização de estímulos e interpretação perceptual (HERNANDEZ; CALDAS, 2001).

Isto é, qualquer esforço para trabalhar o processo de resistência deve focar a percepção do indivíduo. Além disso, saber diferenciar a resistência grupal da resistência individual para que se tenha uma efetiva atuação. Assim, para obter eficácia no processo de mudança é importante conhecer as dimensões da resistência grupal e individual – cognitiva, emocional e intencional – e a partir dessas dimensões fazer uma análise de resposta à mudança a fim de trabalhar em cada dimensão conforme as necessidades identificadas (ALMADA; POLICARPO, 2016).

Acrescenta-se que a compreensão sobre o manejo das resistências que ocorrem no campo grupal é fundamental, “caso contrário o grupo incorrerá em desistências ou estagnação” (ZIMERMANN, 2000, p. 104).

Assim, é importante identificar se o movimento do grupo é de resistência, de obstrução ou, simplesmente, “uma forma de se proteger e funcionar na vida” (ZIMERMANN, 2000, p. 104).

O processo de mudança é contínuo e não pode ser travado nem obstruído, portanto, a moderação desse movimento e um dos aspectos básicos necessários ao coordenador. Devido ao fato de que mesmos os indivíduos de um grupo sensibilizados e conscientes da necessidade de mudança estarão sujeitos aos retrocessos, pessimismos, bloqueios, frustações e a resistência (MOTA; MUNARI, 2006).

Observa que a resistência faz parte da totalidade do grupo, da força de um subgrupo ou de um determinado indivíduo. Isso permite analisar se o indivíduo está resistindo ao grupo ou se ele 50 Revista da SBDG – n.9, p. 46-58, novembro de 2019 está desenvolvendo um papel de representante da resistência do grupo. O próximo entendimento é perceber e reconhecer o que está sendo resistido, por quem, como e para que isso esteja sendo processado (ZIMERMANN, 2000, p. 104).

Destaca-se também que quando o coordenador trabalha a resistência do grupo é preciso que ele esteja atento à forma como verbaliza que o grupo está com resistência, para não gerar uma acusação e/ou necessidade do grupo se proteger. Somente a partir da consciência da existência da resistência o grupo poderá deixar de lado os seus mecanismos de defesa como a negação, ou até mesmo, consolidando este comportamento (CARDOSO; DALL’AGNOL, 2011).

Dessa forma, o equilíbrio do coordenador dos grupos ancora-se no intervalo entre a teoria e a prática, o pessoal e o profissional, o científico e o emocional. Nessa perspectiva, é essencial ao coordenador a noção de complexidade grupal, que frente a sua singularidade possa viver a experiência do grupo e tudo que dele emana (MOTA; MUNARI, 2006, p. 160).

Para finalizar, entende-se que é papel do coordenador expressar o comportamento de resistência identificado e em conjunto com o grupo averiguar as causas e os motivos que levaram o grupo a agir desta forma. Ou seja, o coordenador deve mostrar ao grupo suas atitudes, levando-o a refletir sobre suas escolhas, considerando que a resistência faz parte do processo grupal e é relevante que se promova a reflexão ao invés de padronizar ou enquadrar comportamentos em teorias estruturadas (CARDOSO; DALL’AGNOL, 2011).

3 MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa, com intuito de analisar evidências cientificas das estratégias adotadas por coordenadores no enfrentamento da resistência em grupos de desenvolvimento.

A revisão integrativa da literatura possibilita a síntese do estado do conhecimento de um determinado assunto, além de apontar lacunas do conhecimento que precisam ser preenchidas com a realização de novos estudos. Este método de pesquisa permite a síntese de múltiplos estudos publicados e possibilita conclusões gerais a respeito de uma área particular de estudo (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008, p. 763).

Foram delimitadas as seguintes etapas: elaboração de uma pergunta norteadora; busca e amostragem na literatura; coleta de dados; análise crítica dos estudos incluídos; discussão dos resultados e apresentação da revisão (MENDES; SILVEIRA; GALVÃO, 2008, p. 761).

A busca dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC’s) foi realizada na biblioteca virtual da Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos (SBDG), no período de janeiro a fevereiro de 2019. Este estudo foi composto por todos TCC’s realizados entre 2009 e 2018 disponíveis na íntegra.

Foram identificados 582 trabalhos produzidos entre 2009 e 2018 (2009: 50; 2010: 39; 2011:96; 2012: 69; 2013: 79; 2014: 62; 2015: 61; 2016: 40; 2017: 80 e, 2018: 06 trabalhos). Após a leitura do título e resumo foram selecionados 28 trabalhos para a leitura na íntegra. Após esta etapa, 06 trabalhos apresentaram abordagens que pudessem responder ao objetivo do estudo conforme apresentado na figura 1.

A avaliação e análise dos dados foram realizadas de maneira independente por quatro revisores a partir da leitura do material na íntegra, seguida pela elaboração de um quadro sinóptico com as principais informações a fim de verificar se atenderam ao objetivo da pesquisa conforme instrumento elaborado pelos autores.

A análise dos resultados evidenciados foi realizada de forma descritiva, sendo apresentada a síntese de cada trabalho incluído na revisão, destacando as estratégias elencadas e as classificando com o intuito de responder à questão do estudo. Os estudos foram identificados pela letra (E1…) de evidência e o respectivo número de abordagem, sendo listados nas referências.

Por se tratar de pesquisa com dados de domínio público não foi necessária a aprovação no comitê de ética em pesquisas e foram respeitados todos os aspectos éticos e legais contidos na resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Dentre os estudos levantados foram selecionados para participar da pesquisa seis trabalhos de conclusão de curso do curso de formação em Dinâmicas de Grupo da SBDG. A maioria (4; 67%) dos trabalhos foram de abordagem qualitativa, (3; 50%) realizados em Londrina-PR e, (3; 50%) publicados no ano de 2009 conforme apresentado no quadro 1.

Os trabalhos que apresentaram abordagens com estratégias adotadas por coordenadores no enfrentamento da resistência em grupos de desenvolvimento estão sintetizados no quadro 2.

Quadro 2. Síntese dos resultados, referentes às estratégias adotadas por coordenadores no enfrentamento da resistência em grupos de desenvolvimento. 2009-2018. Londrina, 2019.

 

5 DISCUSSÃO

Foram encontradas nos trabalhos selecionados 24 estratégias adotadas por coordenadores, no enfrentamento da resistência em grupos de desenvolvimento. Destas, 12 estratégias são de intervenção e 12 estratégias de percepção, que exigem a habilidade cognitiva do coordenador para a sua aplicabilidade. Para que o coordenador execute as estratégias de intervenção é necessário que ele faça uso de estratégias acuradas de percepção, pois elas impactarão na qualidade da intervenção e no funcionamento do grupo. Deste modo percebe-se uma estreita relação entre as estratégias de percepção e as estratégias de intervenção.

Estudo realizado com um grupo de professores de uma escola pública evidenciou a necessidade de entendimento dos processos do grupo por parte das coordenadoras para realizar seus estímulos e intervenções embasadas nas suas hipóteses e no manejo do grupo. Elas ainda promoveram um ambiente afetivo, no intuito dos estabelecimentos de relações duradouras e para lidar com a resistência (BAPTISTA; GALLETTI; MENDES, 2008).

O coordenador representa um componente ímpar nos processos de grupo e para apresentar um bom desempenho faz-se necessário formação especializada e sólida, dedicação de tempo para os estudos, amadurecimento e construção de experiências. Além disso, é imprescindível condições pessoais como valores ético-profissionais e alinhamento com a metodologia de laboratório de sensibilidade (MOSCOVICI, 2009).

A prioridade do coordenador é criar um ambiente com condições favoráveis para a aprendizagem, empoderando os participantes do grupo a se desenvolverem como pessoas e a confiar nas suas capacidades e nos outros como ferramentas importantes de seu desenvolvimento. A realização dessa construção do conhecimento só é possível quando o coordenador favorece um ambiente positivo e que ele possa aprender com o grupo, dentro de sua atmosfera que depende de todos e de cada um (MOSCOVICI, 2009).

O coordenador manipula o ambiente e jamais os participantes do grupo, ele cria momentos propícios de aprendizagem, na qual seja desenvolvido o sucesso psicológico do grupo, com o alcance de seus objetivos grupais de acordo com as necessidades dos participantes, atenção no processo do grupo, preocupação com os outros, estabelecimento de confiança mutua e a liderança compartilhada, possibilitando a autonomia do indivíduo no grupo e com o grupo para lidar com as suas adversidades (MOSCOVICI, 2009, p. 283).

Dentre as adversidades encontradas na trajetória do grupo está a resistência que para Freud inicialmente era vista como um obstáculo da análise e com o passar dos tempos o seu surgimento no processo terapêutico é bem-vindo, embora se saiba que ela exista e pode obstruir o desenvolvimento de uma análise (ZIMERMAN, 2001, p. 365).

A resistência pode se manifestar de várias formas sejam elas isoladamente, no processo do grupo e de forma individual, sendo mais comum, o seu aparecimento por meio de atrasos, faltas, na tentativa de alterar combinações, relatos focados Revista da SBDG – n.9, p. 46-58, novembro de 2019 55 no exterior, silêncios intermináveis, intelectualização, surgimento de sabotador, problemas com pagamentos e outros (ZIMERMAN, 1993, p. 102). E as suas principais causas são o medo do surgimento do novo, da depressão, regressão e progressão, inveja excessiva, apego ao ilusório, humilhação e vergonha, manutenção da ilusão grupal e em resposta a inadequações do coordenador de grupo (ZIMERMAN, 1993, p. 102).

Dessa forma, são essenciais a compreensão e o manejo correto por parte o coordenador das resistências manifestadas pelo o grupo e que surgem inevitavelmente no campo grupal, e caso esse manejo não seja adequado o grupo pode vir a ter desistências ou entraves no seu processo de desenvolvimento (ZIMERMAN, 2000).

Frente a este contexto, a realização de estratégias para o enfrentamento da resistência a mudança é fundamental para auxiliar o coordenador no desenvolvimento do grupo. Neste estudo as principais estratégias encontradas de forma sintetizadas foram que o coordenador deve explicar os conceitos teóricos, realizar convites de reflexão, observar, interpretar, compreender e decodificar o processo do grupo, facilitar a tomada de consciência, reconhecer ansiedades, reconhecer resistências frente ao coordenador, intervir e questionar comportamentos, favorecer o contato do grupo com sua ansiedade, incentivar a comunicação, identificar a comunicação verbal e não verbal e conhecer os fenômenos do grupo.

Corroborando com Zimerman (1993, p. 104) que apresenta as estratégias do coordenador lidar com a resistência, que é fazer a discriminação entra as resistências de obstrução sistêmicas e as que são simplesmente reveladoras, discriminar se a resistência e no campo individual, em subgrupos ou no campo grupal, reconhecer e assinalar ao grupo o que está sendo resistido, por quem, e por que está sendo processado, e por fim ter claro para si qual é a sua participação nesse processo resistencial.

Outro dado que desperta a atenção é a escassez de publicações disponíveis sobre as estratégias de enfrentamento da resistência na biblioteca da SBDG e a sua redução ao longo dos anos, que pode estar relacionada com a dificuldade em abordar a temática no trabalho de conclusão da formação, pois lidar com o conhecimento das resistências e ao mesmo tempo manejar as suas próprias e grupais é um processo árduo, desafiador e que requer de muita resiliência, paciência e determinação.

A SBDG é uma instituição criada em 1983 e está há mais de 36 anos no mercado, oferecendo cursos de formação em Desenvolvimento dos Grupos em vários estados e cidades do Brasil, ao final de cada curso são produzidas uma série de trabalhos de conclusão do curso e alimentam a sua biblioteca virtual. A escolha de apenas uma biblioteca virtual pode ser considerada uma limitação deste estudo, não sendo possível realizar uma generalização das evidências sintetizadas aqui para o restante da literatura.

Entretanto, este estudo contribui para o avanço do conhecimento científico, pois apresenta de forma sintetizada as principais estratégias de enfrentamento das resistências adotadas pelos coordenadores de grupos de desenvolvimento e auxiliam em seu processo de formação continua a lidarem com a resistência.

Como contribuição ao processo de resistência nos grupos sugere-se a realização de mais estudos que versem a utilização das estratégias no enfrentamento da resistência e que os coordenadores dos grupos de desenvolvimento pesquisem a respeito da temática, pois em seu processo vivencial com os grupos a resistência se faz presente continuamente.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Lidar com a resistência é um trabalho que exige percepção, maturidade profissional e entendimento dos fenômenos grupais pelo coordenador de grupos. Para a sua atuação, o conhecimento de estratégias de enfrentamento da resistência é essencial para instrumentalizar a formulação de suas hipóteses a partir da leitura do processo do grupo e para subsidiar suas intervenções originadas de suas percepções da resistência presente no grupo.

Neste estudo foram identificadas 24 estraté- 56 Revista da SBDG – n.9, p. 46-58, novembro de 2019 gias extraídas de seis estudos, sendo 12 voltadas diretamente para auxiliar na aplicação de intervenções e 12 para instrumentalizar as percepções dos coordenadores de grupos de desenvolvimento.

As estratégias de enfrentamento da resistência encontradas nesse estudo não têm a intenção de esgotar as possibilidades nas relações entre o coordenador e os seus grupos de atuação, entretanto elas fornecem um olhar inicial de como lidar quando a resistência se faz presente em algumas situações no grupo e desbravar os motivos de sua recorrência.

As estratégias de percepção propiciam aos coordenadores com menor vivência em lidar com o manejo de grupos alguns pontos de observação nos quais a resistência pode se fazer presente no grupo. Já as estratégias de intervenção identificadas são auxiliadoras após a leitura de determinada situação resistencial, instrumentalizando os coordenadores em seus encontros com os grupos, mas não limitando-os as diversas possibilidades em trabalhar a resistência no grupo.

Para finalizar, destaca-se que entender e compreender as manifestações da resistência nos grupos de desenvolvimento não é um processo fácil. Assim, identificar as estratégias na literatura foi um processo ambíguo, pois ao mesmo tempo em que os autores descobriram as estratégias elencadas nos estudos de como manejar a resistência nos grupos, tiveram que lidar com a própria resistência enquanto membros de diversos grupos na sociedade, apresentando comportamentos já destacados na literatura como atrasos, faltas, dificuldades em se reunirem e na elaboração final do trabalho, remetendo a naturalidade e singularidade do ato em resistir.

 

Rafael Rodrigo da Silva Pimentel

Maynara Fernanda Carvalho Barreto

Paula Graziela Pedrão Soares Perales

Mariana Guimarães Cardoso

 

REFERÊNCIAS

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